04/11/2026 - Iniciativa internacional conecta pesquisas sobre populações, movimentos e capturas acidentais para orientar a proteção da espécie em todo o oceano. ↓
Por Dra. Liliana Poggio Colman
L.P.Colman@exeter.ac.uk
Iniciativa internacional conecta pesquisas sobre populações, movimentos e capturas acidentais para orientar a proteção da espécie em todo o oceano.
Proteger uma espécie que atravessa oceanos exige olhar além das fronteiras. Entre as praias onde desovam e as áreas onde se alimentam, as tartarugas-de-couro percorrem milhares de quilômetros e enfrentam ameaças que nenhum país consegue resolver sozinho. Conectar conhecimentos e transformar pesquisas em ações coordenadas é a proposta da Wilkes Atlantic Leatherback Turtle Alliance (WALTA), uma aliança internacional dedicada à conservação da espécie em todo o Atlântico.
Lançada em junho de 2026, a iniciativa é coordenada pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, com apoio do Wilkes Sea Turtle Protection Fund. A rede já reúne mais de 80 organizações parceiras em 32 países, conectando pesquisadores, organizações de conservação, formuladores de políticas públicas e outros parceiros da África, das Américas e da Europa.
Grandes viajantes, ameaças ao longo do caminho
As tartarugas-de-couro (Dermochelys coriacea) são as maiores tartarugas marinhas do mundo e realizam algumas das migrações mais longas do reino animal. No Atlântico, conectam praias de desova em locais como o Espírito Santo, no Brasil, e o Gabão a áreas de alimentação distantes, chegando tão ao sul quanto a Argentina e a África do Sul.

Ao longo dessas jornadas, enfrentam a captura acidental na pesca, a perda de habitats, a ocupação costeira, a poluição marinha e os efeitos das mudanças climáticas. A combinação dessas pressões tem contribuído para o declínio de muitas populações.
Globalmente, a espécie é classificada como Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). No Atlântico, porém, a situação varia: a população do noroeste é considerada Em Perigo, enquanto a do sudoeste, que desova no litoral norte do Espírito Santo, está Criticamente Em Perigo. Já a população do sudeste do Atlântico permanece na categoria Dados Insuficientes, evidenciando a necessidade de ampliar o conhecimento sobre sua situação.
Conhecer para proteger
A WALTA trabalha para preencher três lacunas de conhecimento interligadas: a situação das populações que desovam no Atlântico, a dimensão e a distribuição das capturas acidentais na pesca e os movimentos das tartarugas em áreas de risco.
Ao reunir essas informações em escala oceânica, a aliança poderá identificar habitats prioritários, locais onde os deslocamentos das tartarugas coincidem com atividades pesqueiras e oportunidades práticas para reduzir as ameaças. O objetivo é oferecer uma base científica sólida para orientar medidas de conservação e decisões de políticas públicas, tanto nas águas sob jurisdição dos países quanto em alto-mar.
Pesquisas no Brasil revelam rotas e áreas importantes
O litoral norte do Espírito Santo abriga uma pequena população de tartarugas-de-couro, com aproximadamente 10 a 20 fêmeas desovando por ano. Conhecer seus deslocamentos e os ambientes que utilizam é fundamental para orientar sua proteção.
No Brasil, a WALTA trabalha com a Fundação Projeto TAMAR e o Centro TAMAR/ICMBio para ampliar esse conhecimento. O rastreamento por satélite e a análise de isótopos estáveis — técnica que ajuda a investigar a alimentação e os ambientes utilizados pelos animais — permitem compreender para onde essas tartarugas viajam, onde se alimentam e quais ameaças encontram.
As análises iniciais indicam que, durante o período de desova, elas se concentram em águas costeiras próximas à foz do Rio Doce. Depois, seguem por rotas costeiras ou oceânicas em direção a áreas de alimentação na costa do Brasil, do Uruguai e da Argentina, no entorno da ilha de Tristão da Cunha, território britânico no Atlântico Sul, e em alto-mar, próximo à Elevação do Rio Grande, no Brasil.

Esses resultados reforçam a necessidade de fortalecer a proteção dos habitats utilizados pela espécie e de coordenar medidas para reduzir as capturas acidentais ao longo de suas rotas.
Um esforço que conecta todo o Atlântico
Em outra frente, a WALTA está reunindo informações sobre capturas acidentais de tartarugas-de-couro em pescarias em todo o Atlântico. Essa síntese ajudará a identificar as áreas e as atividades que representam maior risco para a espécie e a orientar medidas de prevenção e redução dessas capturas.
A aliança também está atualizando as tendências das populações que desovam no Gabão, país que abriga a maior população conhecida de desova de tartarugas-de-couro do Atlântico. O trabalho envolve parceiros como o Partenariat pour les Tortues Marines du Gabon.
Juntas, as três frentes de pesquisa fortalecerão as evidências necessárias para identificar interações de alto risco com a pesca, priorizar medidas de mitigação entre países e jurisdições e proteger habitats importantes de reprodução e alimentação. Também contribuirão para orientar a conservação em alto-mar no âmbito do Acordo sobre a Biodiversidade Marinha em Áreas Além da Jurisdição Nacional, conhecido pela sigla BBNJ.
Transformar ciência em ação
Os objetivos da WALTA vão além da pesquisa científica. Ao trabalhar com governos, organizações de pesca, organizações não governamentais, financiadores e outros parceiros, a aliança busca transformar suas descobertas em prioridades compartilhadas e ações concretas.
Essa colaboração pretende fortalecer a atuação em defesa da espécie com base em evidências, aprimorar medidas de gestão da pesca, ampliar a proteção de habitats essenciais e incentivar a cooperação internacional. A meta é reduzir as ameaças às tartarugas-de-couro ao longo de todo o seu ciclo de vida e contribuir para sua conservação nas próximas gerações.
Para Brendan Godley, professor de Ciências da Conservação da Universidade de Exeter e membro da WALTA, a criação da aliança representa um avanço importante para a proteção da espécie no Atlântico.
“As tartarugas-de-couro atravessam fronteiras e enfrentam ameaças ao longo de todo o oceano. Somente com uma abordagem verdadeiramente internacional, baseada em evidências sólidas sobre as populações, movimentos e capturas acidentais, poderemos identificar as prioridades reais de conservação e agir de forma coordenada. A WALTA foi criada exatamente para preencher essas lacunas e transformar ciência em ação concreta”, destaca o pesquisador.
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